Essa aconteceu no interior da Bahia com o Seu José Firmino. Ele andava de noite sozinho, voltando de uma comemoração com os compadres. Era lua cheia e ele via com clareza o seu caminho.
Ali é uma região de vegetação baixa, difícil de se emboscar. Por isso de longe ele viu aquela sombra se movendo por entre os arbustos. Do tamanho de um homem grande e com a velocidade de uma onça. Os dois estavam cientes um do outro. Não havia pra onde correr e o melhor era enfrentar o perigo.
Firmino ficou ali pensando o que poderia ser aquela sombra. Foi quando ele se lembrou do lobisomem e das histórias que Dona Ernestina, sua avó, contava sobre essa fera. Um homem amaldiçoado que em noite de lua cheia virava um monstro meio homem meio lobo. De força sobre humana e mãos terminadas em garras afiadas como navalhas. Ele buscou nas lembranças a maneira de como matar aquele monstro. Das alternativas que ele lembrava haviam atear fogo, uma flecha no coração e uma facada no umbigo. Por sorte ele andava com um facão a tira colo.
Enquanto se armava e esperava a investida do lobisomem lembrou-se um detalhe importante. Não era só atravessar a faca pelo umbigo, havia mais algum detalhe que não conseguia lembrar.
Mas já era tarde, a fera pulava num salto em direção ao Firmino que abriu guarda esperando estacar num único golpe o facão na área exposto do abdômen. Segurou com mais força o cabo da lâmina e forçou a entrada pela barriga usando a o próprio peso do monstro. Caíram juntos e o Firmino empurrava pra longe de si um lobisomem agonizante. Ele vencera.
Ficou um tempo examinando a fera, seus pêlos escuros e eriçados, a cabeça de lobo e o olhar de humano. Quando acreditou que havia terminado o monstro começou a se mover novamente, gemendo alcançou o cabo da lâmina e a retirou do abdômen com a mesma facilidade da qual se tira um espinho do pé.
Foi quando o Firmino lembrou do detalhe. A cruz. Depois de estocar a fera tens que fazer um corte em cruz na altura do umbigo rezando praquela alma ter paz. Sem isso o lobisomem se regenera e volta à vida.
Agora ele já não teria a mesma sorte, não tinha mais seu facão e enquanto o mostro levantava cambaleando pôs se a correr. Não sabe o quanto correu, nem procurou certificar-se se a fera o seguia ou não. Só parou quando chegou na casa do Seu Valdir gritando por socorro.
Desta vez o compadre deu sorte e nunca mais esqueceu que pra matar mesmo o lobisomem precisa da cruz.
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